Um e-mail supostamente escrito por Artur Cândido da Silva, extrabalhador do Jango Veleiro, deixou atónitas centenas de internautas e leitores pelo facto do mesmo puder vir a ser julgado por tentar roubar 32 limões no restaurante, na madrugada de 22 de Outubro.
O funcionário, que trabalhava na instituição há dois anos, esteve detido vários dias na esquadra policial da Ilha de Luanda, já foi posto em liberdade, embora a administração do restaurante não abra mão do processo em causa. “O gerente do restaurante, o senhor André, prestou declarações nessa madrugada e diz me conhecer há um ano, mas sabe que eu trabalho há mais tempo. Também diz não haver razões para detenção, porque 32 limões seriam o equivalente a 1500 Kwanzas e que isso era um caso que poderia ser resolvido internamente”, explicou o acusado, acrescentando que “o máximo que a gerência poderia fazer era demitir-me”.
No dia 23 de Outubro, como atesta o próprio e-mail do acusado, compareceu na esquadra da Ilha, onde voltou a ser detido, acusado de furto de três quilogramas de limão, ou seja 32 limões, pelo segurança Manuel Bunga, da empresa PRODIAM, também pertença do proprietário do Jango Veleiro, o empresário Pedro Godinho.
O acusado explicou que as pessoas na esquadra ficaram comovidas, quer o oficial dia, a comandante e os agentes em serviço, porque acham que não podia ser detido por causa de 32 limões, mas nada podiam fazer porque existia uma queixa.
“Eu confesso não ter roubado 32 limões, o restaurante Jango Veleiro tem câmaras, peço por favor para verem as filmagens. Quem souber fazer contas e souber o preço de 32 limões, quanto é que isso equivale? Eu tenho família, trabalho honestamente há mais de dois anos, será que se eu precisasse de dinheiro não poderia recorrer à minha família e amigos?”, questionou-se o incriminado, no e-mail dirigido aos órgãos de comunicação social.
Inconformado com o facto de ter passado Quinta, Sexta, Sábado e Domingo no calabouço, por causa de três quilos de limões, o jovem Artur Cândido da Silva, interrogou-se ainda: “eu tenho sonho, concluir os meus estudos e continuar a trabalhar, onde é que eu posso arranjar emprego depois deste escândalo, como poderá ficar manchada a minha ficha criminal? Será que não há crimes mais complexos em Luanda para ocupar o lugar da cela que eu estou a ocupar? Será que não haverá outros crimes para ocupar o tempo da Polícia e o nosso Tribunal?”
Já posto em liberdade, o barman não teve um julgamento sumário, porque alguns argumentos da acusação esvaziaram-se.
Depois de ter sido apanhado em flagrante delito pelo segurança com os citrinos, como confirmou a O PAÍS o chefe de segurança do restaurante, identificado apenas por Kiala, ele foi dispensado para ir à casa e regressar no dia seguinte.
Apesar disso, a direcção do Jango Veleiro aguarda que a Polícia Nacional encaminhe o “Processo dos limões” para o Tribunal Provincial de Luanda.
A equipa da administração do restaurante acredita na existência de uma rede de funcionários que delapidam constantemente os cofres da empresa, razão pela qual pretendem levar o caso às instâncias judiciais, porque ladrão de milhões de dólares e de limões, são todos ladrões.
Dos limões aos milhões.
Os considerados pequenos roubos, desencadeado por cozinheiros, empregados de mesa, bar, caixa, copa, grill e pivô, ameaçam a existência do próprio restaurante, que neste momento está endividado com alguns fornecedores.
Alguns empregados de mesa nem sempre entregam o dinheiro aos caixas, não fazem o registo automático das encomendas e mentem aos clientes que têm problemas para a impressão das facturas. Existem caixas que acabam por subtrair alguns valores depois da hora de trabalho.
Numa carta enviada ao chefe do departamento de investigação criminal da 1ª Divisão da Polícia Nacional, intendente Vidal Fermão, a administradora Ana Godinho referiu, no dia 8 de Junho de 2006, que tinha sido descoberto uma série de desfalques, em estavam envolvidos 30 funcionários suspeitos.
A senhora sublinhou que os danos financeiros registados, em consequência dos desfalques desenvolvidos pelos referidos suspeitos, estão avaliados em média diária de 288.
200 Kwanzas, equivalentes a 3.600 dólares norte-americanos na altura, o que totalivaza o valor mensal de 8.640.600 Kwanzas ou seja, 108.000 dólares.
A julgar pelos dados contabilísticos de há três anos, uma fonte do restaurante confidenciou a O PAÍS que pelo menos um milhão 200 mil dólares terão sido roubados em dinheiro e em mercadorias, nos chamados pequenos roubos.
“Tendo em conta a magnitude da delapidação financeira que se vem registando, acreditamos que brevemente registar-se-á a falência do restaurante e o consequente desemprego de mais de 250 pessoas que constituem o universo de trabalhadores do Jango Veleiro, conduzindo assim à agudização das dificuldades sociais e financeiras destes e seus familiares”, lê-se ainda na carta endereçada por Ana Godinho, solicitando a Polícia Nacional que efectue “diligências necessárias para a neutralização da rede e a consequente responsabilização criminal” dos seus integrantes.
A administradora realçou que após o desmantelamento de mais de cinco redes organizadas pelos funcionários com o intuito de se locupletarem dos valores monetários e bens materiais, a sua empresa apresentou os supostos ladrões à esquadra da 1ª Divisão da Polícia Nacional, na Ilha de Luanda, mas infelizmente os arguidos dos cinco grupos foram libertos.
Outras cartas foram enviadas à Polícia Nacional entre 2007 e o ano em curso, mas a PGR argumenta sempre que os valores subtraídos são módicos. E os acusados são postos em liberdade.
“Quando as pessoas menosprezam 32 limões”, conta um dos responsáveis, “não têm noção de que isso representa cerca de 500 ou 600 dólares em caipirinha, que é uma das bebidas mais solicitadas actualmente nos restaurantes e bares”.
Fonte: Jornal O País
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